Chasques do Poeta,Escritor e Radialista Dilmar Paixão...

 

 

    

 

 

 

O QUE CHEGA SEM NUNCA TER PARTIDO

Não estou falando do Homem do Pala Branco, de Jesus Cristo ou de quem quer que seja em especial. Apenas constato que não há como desviar das comemorações natalinas. Onde quer que se vá e para onde se tentar dissimular será em vão: o Papai Noel dá um jeito de aparecer, nem que sejam pela chaminé da esperança ou pelo telhado da lembrança.

Apelos religiosos, intenções comerciais, tudo é o Natal do Papai Noel, mais Noel do que Papai e mais festividades do que a celebração do nascimento de Cristo e a chegada do Novo Ano. Não há como escapar a esse cerco bíblico-festivo-institucionalizado. Então, aqui estamos para marcar o tema, claro que sem a capa vermelha, as botas pretas e a roupa quente que deve deixar prestes a desidratar muito Papai Noel. Cuido da barriguinha, por obra dessas e outras comemorações.

Proponho, portanto, uma recoluta – como as retrospectivas midiáticas – e algumas reflexões prospectivas, porque uma nova jornada começa. Esvaziam-se gavetas. Agendas são trocadas. Novos planos, novos sonhos, novas metas. Tudo para um ano que promete ser “dez”. Mais: 2010.

Comemoramos, há algum tempo, um ano inteiro dedicado às comunicações. No mundo todo, por mais otimista que alguém pudesse ser, ninguém pensava que a internet e os demais instrumentais da comunicação cresceriam e se desenvolveriam tanto. Ah, se o tradicionalismo pudesse ter seguido ao perto esse crescimento e a proporção desse desenvolvimento. Todavia, o culto às tradições, neste ano, cresceu novamente, de forma oficial e extra-oficialmente, coletiva ou individual e profissionalizada.

Diante dessa constatação fenomenológica tem-se, persistente, o desafio de mostrar aos gaúchos que as comemorações natalinas, os ternos de reis e as manifestações autênticas do Rio Grande antigo merecem ser reconhecidas, estudadas, compreendidas e valorizadas, principalmente, pelo meio estudantil e pela intelectualidade para que possam chegar aos demais segmentos sociais. Quem sabe o esquema promotor do Papai Noel, imaginado no modelo visual de um velho bispo, não pode servir de inspiração. Se o Papai Noel e a neve, por exemplo, conseguem resistir a essas mudanças dos tempos modernos em pleno calor brasileiro não poderão ser resgatados os costumes rio-grandenses verdadeiros ?

Põe-se como evidente, o fato de que o espírito natalino favorece a espiritualidade, o humanismo, a solidariedade e a confraternização. Neste princípio, viva o Natal e permaneça para além do Ano Novo e a Festa de Reis, no dia 06 de janeiro!

Lembro-me, em especial, do texto do Aparício Silva Rillo, musicado pela competência do Luiz Carlos Borges, cantando na Ronda:

“tira, tira, tira, o “E”,

a letra “E” da palavra “PEÃO”.

Transformada tem outro sentido,

se veste de trigo,

tem nome de “PÃO”!

“Que nunca te falte, peão do Rio Grande, o Pão!”

Feliz Natal !

Feliz Ano Novo !

Gravataí, 22 de dezembro de 2009

 

Três anos de uma existência vigorosa em meio a muitas lembranças

   

Muitas comemorações e eventos especiais poderiam ser lembrados nesta janela que a tecnologia internauta proporciona a todos quanto se sintonizam nesta forma privilegiada de comunicação trazida pela modernidade. Neste mês, por exemplo, temos a lembrança de que Barbosa Lessa estaria completando 80 anos. Luiz Carlos Barbosa Lessa nasceu a 13 de dezembro de 1929, na cidade de Piratini, e morreu em Camaquã, a 11 de março de 2002. Folclorista, escritor, músico, advogado, historiador e tudo mais que a cultura rio-grandense não deixa esquecer. Esteve com Paixão Cortes nos primórdios da criação e, principalmente, da difusão que deu o impulso central a essa explosão geográfica do tradicionalismo pelo mundo.

Poderia citar como aplauso, a iniciativa do Programa Galpão Crioulo que reuniu Nico Fagundes e Paixão Cortes nas lembranças das primeiras escaramuças da turma do Colégio Julinho e da excursão à Europa. Pena que a madrugada do horário não contemple a mesma possibilidade de acesso a todos e o esforço do despertador elimine a audiência de tantos que gostariam de saber dessas iniciativas.

Uma lembrança saudosa a se fazer pode ser a de Sônia Abreu, professora, advogada, patroa do CTG Júlio de Castilhos, entusiasta do tradicionalismo cultural, a dona Sônia de tanto incentivo aos jovens e orientadora das campereadas gaúchas pela arte, pela cultura e pelo conhecimento. Tive a coincidência de estar, com a minha irmã e meu pai, a caminho do cemitério de Faxinal no interior de Cruz Alta, hoje Boa Vista do Cadeado, na manhã daquele dois de novembro, o dia dos finados.

Fui incumbido de falar em nome dos segmentos culturais, enquanto o Dr Romeu Ribeiro, tradicionalista, amigo e um representativo prefeitos daquele município, citou a trajetória e a vida dedicada por ela à comunidade castilhense e gaúcha. Naquela despedida, falei dos méritos das pessoas que se esforçam para que o mundo seja melhor e da lembrança que fica quando esse trabalho ativo, como foi o da Dra Sônia Abreu, tem o reconhecimento das pessoas beneficiadas e da população que usufrui desses conhecimentos, esforços e serviços, mesmo que muitos anos depois.

Poderia distinguir, o êxito do companheiro de ativismo cultural Paulo Guimarães à frente do Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre. Talvez, muitos não dimensionem a significância desse posicionamento conquistado pelo Guimarães, neste momento de importantes disputas por espaços sociais mais representativos.

A lembrança que faço neste chasque é simples, sincera e festiva. Nós que tivemos o privilégio de acompanhar a condição evolutiva das comunicações, jamais imaginaríamos que se pudesse chegar tão rapidamente às novidades disponíveis e que, cada vez, pretende-se sejam democratizáveis sempre a um grupo maior de pessoas. Quando, ainda no 2º Encontro de Comunicadores da Cultura Gaúcha, em Santa Rosa , nos anos 90, o companheiro de rádio e amigo, Engenheiro Otacílio Rodrigues dos Santos mostrava o velho CP 30 dizendo que o celular seria a revolução para os repórteres, dispensando as transmissões que precisavam ligar fios e desmontar o bocal dos telefones fixos (muitos entrevistados chateavam-se com isso!), a interrogação passeava na mente dos ouvintes e os mais crédulos imaginavam que o engenheiro estava sendo otimista demais.

O que temos atualmente comprova que não há mais limites para essa evolução midiática e que a comunicação está mais aparelhada para ligar pessoas e idéias (insisto no acento, valendo da autorização para seu uso por mais alguns anos). Por isso, prefiro fazer desse retorno ao gentil espaço que me é oferecido, a lembrança de uma outra forma de ser pioneiro e de se preocupar em tornar acessível o conhecimento, a luta pela identidade cultural rio-grandense e a defesa do gauchismo autêntico e tradicional para que possa chegar às gerações futuras o mais próximo dos costumes avoengos, registrando, promovendo e difundindo o que é tradicionalismo, como a real transmissão de geração à geração. Falo deste sítio ou saite para os mais “chiques”. O www.chasquepampeano.com.br tem neste mês de dezembro, dia 06 mais propriamente, sua data mais representativa desse esforço, onde o Guimarães, a esposa e filho põem em contato pessoas que não se conhecem pessoalmente, mas que convivem dia a dia através da internet.

Faço esse destaque, com a mesma intensidade que poderia registrar o lançamento do livro “Poesia em Prosa e Poema”, volume 1, que o Paulo Mendonça, outro expoente da cultura gaúcha, organizou como forma de comemorar os 22 anos do Jornal do Nativismo. Publiquei “Poncho de Penas”, a poesia que me deu um dos meus mais importantes troféus na poesia, posto que foi o poema vencedor do Rodeio de Poetas da Estância da Poesia Crioula deste ano de 2009.

O livro do Partenon Literário, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, foi outra satisfação que me rodeou de emoções neste ano, da mesma forma que o convite para fazer a palestra na inauguração da Estátua de Jayme Caetano Braun. “À Moda Campeira” é uma milonga que escrevi e encontrou ressonância na inspiração e competência do Beto Caetano e do Everton Garcia ( www.chegouotrancaco.com.br ) no lançamento do CD do Grupo Trancaço, hoje sucesso onde se apresenta, animando fandangos nos moldes mais tradicionais do gauchismo.

Enfim, recorto esta saudação ao acesso de tantos a esses sítios e sites que nos alcançam poesias, músicas e sucessos de ontem e de agora, informações, literatura e o exercício do melhor fenômeno humano depois da fisiologia do organismo biológico, que é a comunicação. Parabéns ao Guimarães, editor e idealizador deste Chasque Pampeano. Parabéns aos companheiros de leitura e de convivência neste espaço internáutico que nos inunda de informações quase instantâneas e, acima de tudo, úteis para o nosso cotidiano de gaúchos, brasileiros e viventes.

 

Gravataí, 09 de dezembro de 2009

Dilmar Paixão

 

 

CRISE ?

 

De quem é a crise ou de que crise estamos falando? Essas interrogações que margeiam escândalos em muitos dos campos da convivência social, econômica e política no Brasil e no mundo. Todos, de alguma forma, somos atingidos, mesmo que tentemos ficar distantes desses processos. Tive oportunidade de repetir, nesta segunda edição do Curso de Cultura Gaúcha recentemente, honrado pelo convite dos organizadores, de que o pronunciamento de Rui Barbosa nunca foi tão atual: “de tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus; o homem chega a  desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.  

Mais: há três dias foi proclamado em Ekaterimburgo, Rússia, que “Um bebê acaba de nascer, mas ainda está no berço”. A frase do Vice-Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabcov, foi proferida quando líderes de gigantes emergentes como o Brasil, a Rússia, a Índia e a China fizeram a primeira reunião de cúpula do BRIC, que pretende atuar de forma coordenada na reforma do sistema financeiro internacional. Bric em linguagem usual tem significância direta para nós brasileiros.
Mais do que a diversificação do sistema mundial de divisas estamos vivendo, sim, uma nova fase no mundo. De novo se vai à lua. Nunca a palavra explorar esteve tão em moda como nesses tempos ultramodernos. Sancionam-se promessas e decisões emergenciais que, quase sempre, causam efeitos fugazes e inconsequentes.
Avançam as informações mensageiras em espaços de divulgação que nem sempre são usados na intenção do bem comum, dos hábitos, da cultura e dos costumes dos povos. As fronteiras são ultrapassadas com um clique eletrônico de imagem e som. A compreensão resta a um número menor, como alertava o Barbosa Lessa, porque muitos, sem compreender o significado dessa crise dos novos tempos, seguem conduzidos e, em decorrência, alienados pela avalanche de propósitos e desígnios nem sempre apariscentes.
No nosso campo das gauchadas, se de um lado se critica a profissionalização de atividades artísticas e culturais, embora a propositura discursista por formatos mais evoluídos, o disparate fica clarificado ao pequenino exame da prática por essas mesmas pessoas. O pouco valor desse tipo de posicionamento, por sua fraqueza intrínseca, nos remete à fala antes comentada de que “De tanto ver triunfar as nulidades...”
Prefiro, destarte, lembrar que neste dia 18 de junho é estação para lembrar os integrantes da primeira fase da Sociedade Parthenon Litterário, de 1868 a 1885, que, além de divulgarem suas obras culturais, entregavam-se a defender a liberta ç ão dos escravos, a implanta ç ão da Rep ú blica e à valoriza ç ão social da mulher. Para consecu ç ão dos seus prop ó sitos promoviam aulas noturnas gratuitas, concorridos saraus po é ticos e musicais, publicavam revista cultural e art í stica, criaram uma biblioteca volumosa e um museu. Desde 1997, revigorou-se um novo período do Partenon, que participamos com o Serafim, o Cláudio Sá, o seu Paixão, a Dinara, o Benedito, o Nadir e tantos outros companheiros da arte escrita. Há uma exposição na Câmara de Vereadores de Porto Alegre lembrando este novo momento cultural.
Destaco, com igual intensidade, o Rodeio dos Poetas da Estância da Poesia Crioula no final deste mês de junho, do qual falo mais num próximo chasque, tão pampeano quanto a hospitalidade, a cortesia e o cuidado com a cultura rio-grandense e os organismos culturais e literários, responsabilidades assumidas e mantidas pelo elogiável esforço pessoal do Guimarães.
Noutra feita, proseamos mais.
Gravataí, RS, 18 de junho de 2009

 

MEIA PALAVRA BASTA !

Refugiei-me dos atropelos do cotidiano, por alguns poucos dias, salgando o corpo - como diz o gaúcho - pelo estágio mais comum entre os metropolitanos nesta época de início do calendário. Entre um e outro mergulho, o refresco de observar o colorido da paisagem circundante. Das caminhadas ao churrasco sobrou, nesses dias, o convívio mais ameno com uma rotina modificada pelo ambiente, pelas pessoas e pelos acontecimentos.
Das muitas leituras, deparei-me com uma terminologia que vem ganhando força nas capitais a partir de uma notícia mineira: “a gentileza urbana”. O termo era usado mais focado no trânsito, porém gostei tanto a ponto de concebê-lo em um certo número de generalidades da vida diária. Lembrei-me de um dos meus principais mestres na comunicação e no jornalismo: o padre Paulo Aripe.
O potrilho-poeta descreveu, no começo da década de 80, o contexto controverso de um índio grosso na sua primeira viagem de trem, de Alegrete a Porto Alegre, deparando-se contra os comparativos inevitáveis com os transeuntes metropolitanos. Constatava o poeta: “...o homem da capital, sempre sério e preocupado, mecânico e artificial, escravo do ganha pão, num atropelo brutal...”
Devidamente dimensionadas as circunstâncias do poema e o tempo passado das percepções por ele evidenciadas há indícios de hipóteses bem fundamentadas de que esses atropelos do cotidiano eram prerrogativas de algumas pessoas somente, porque a imensa maioria mantinha-se imunizada. Mas, a epidemia se pronunciou e os atropelos tornaram-se endêmicos e bem mais resistentes a qualquer tipo de “antibioticoterapia”. Se assim tem sido, como cometer a gentileza urbana ?
A cada ano é a generosidade quem mais dá as boas vindas. Por isso, se pensarmos que atropelo pode significar anarquia, bagunça e/ou desorganização, assentar-se-á outra confusão: confundimo-nos com frenético, impaciente, inquieto, pressuroso e irrequieto. Mesmo assim, nos entendemos certamente, a ponto de compreendermos que nunca foi tão necessária essa mudança da pressa e do atropelo pelos sentimentos urbanizáveis da gentileza, da paz e da generosidade.
Se esta intenção midiática é reforçada a todo natal, nas festividades de ano novo e praticamente em todas as manifestações humanas que se seguem como a campanha da fraternidade, por outro lado, se observa facilmente que a gentileza ocorre mais nos momentos nos quais não há pressa, azáfama ou açodamento. Nem atropelo. Talvez pela amabilidade. Quem sabe pela elegância que a gentileza pressupõe !
A conjetura implica que não há período de maior prática da gentileza do que da proximidade do natal à festa de reis. E nós dissemos: boas festas . Ora, se essas são somente boas , pode-se imaginar como poderiam ser melhores os exercícios e augúrios dos desejos de todos.
O vocábulo gentileza adjetivado de urbana pode deixar pensar que existe suficiência no meio rural, todavia não pretendo investir por esses caminhos da análise e da interpretação dos termos, postergando-a para uma ocasião mais oportuna. Ressalto apenas que há sim – e muita – necessidade de gentileza urbana na convivência cotidiana deste século XXI. Pessoas esquecidas de regras simples e elementares, lideranças perdidas e divorciadas do sentido ético e alguns inventando direções outras para a cidadania sem se importar com as razões simples da vida, da convivência e da urbanidade acrescentam valores assombrosos nessa dívida com a civilidade.
A gentileza há de ser mais presente no trânsito, no trabalho, na cultura, na recreação e na vida social. Que ela sobreviva aos atropelos do cotidiano são os meus mais sinceros votos para 2009. Quem sabe, assim, se possa ter nas instituições e nos demais segmentos do tecido social bem menos broncas, escândalos e disputas sórdidas pelo poder. O atropelo não é e nem pode continuar a ser desculpa e justificativa para esses atos nada gentis e menos urbanos – que dirá humanos. Pena que os presságios sejam mais influenciáveis pelas conseqüências dos comportamentos e atos decisórios de pseudolideranças do que pelos discursos artificiais que proferem, mesmo que, algum tempo depois, se revistam de gentileza.
Sigo confiando no ensinamento do ditado popular de que “para um bom entendedor, meia palavra basta ! ”

Atlântida, 10 de fevereiro de 2009.

Dilmar Paixão

 

Decisões, eleições, paixões e as convergências do cotidiano...

 

Apeamos de uma semana farroupilha alargada por comemorações que duram praticamente mais de um mês, se contarmos os preparativos e a recolhida dos acampamentos. Para uns são a lembrança de antepassados, da infância ou da vida na campanha, tomada aqui não como uma região delimitada pela geografia, mas a referência ao viver interiorano de tantos de nós. Para outros, os festejos farroupilhas (re)visitam amizades, recontam causos, ampliam a roda de chimarrão, tornam os assados mais comunitários e os galpões abertos permanentemente à acolher visitantes. Até o sofrimento pela infra-estrutura aquém da merecida (prometida por muitos) se dilui ao som de poesias, músicas, trovas, canções e gargalhadas. Há quem veja nesses acampamentos da semana farroupilha, uma oportunidade cultural em meio à avalanche recreacionista do campeirismo.
Indiscutível e indispensável percebê-la como um fenômeno social de aproximação com um outro mundo rio-grandense que, mesmo os questionadores e os transeuntes muitas vezes desinformados, reconhecem como movimentação diferente, sentimental e contagiante.
No Parque da Harmonia ou por onde quer que se tenha andado, sempre, encontrou-se gente amiga e hospitaleira, recebendo com fidalguia, e as pessoas dispostas a parar seus cotidianos para ouvir opiniões de palestrantes convidados. Nesta condição fui honrado por amigos e companheiros, prendas e patronagens em vários locais da querência brasileira. No deslocamento de um recanto para outro pude compreender que, mesmo pessoas que desconhecem detalhes mais efetivos da nossa prática tradicionalista, sabem incluir tradição, cultura e sentimentalismo como esteios desse mesmo orgulho de ser gaúcho, embora nem sempre nascidos no Rio Grande do Sul.
Meus vizinhos ergueram um galpão crioulo em poucos dias, substituindo a barraca grande dos anos anteriores. Gaúchos e não-gaúchos agaucharam-se ao redor do fogo, sob a fumaça da churrasqueira, ao som da gaita e do violão, dos bons cantores que se revezaram no palco entre educados aplausos. A chama crioula foi acolhida e permaneceu acesa iluminando os reencontros dos finais de tarde, mesmo com a roupa do serviço, sem o rigorismo dos que não conseguem ver conhecimento, sensibilidade e cultura para além da indumentária.
Numa dessas palestras revi amigos que me honraram com o convite para falar no acampamento do CTG Raízes do Sul. O patrão, a patronagem, o Guimarães e companheiros que, comigo, aplaudiram jovens personagens manifestando-se sobre os símbolos rio-grandenses. Nas entrevistas pelas emissoras de rádio e na Ulbra TV dialogamos em prol de uma ação comunicativa que possa mobilizar os gaúchos a partir da própria evolução dos veículos de comunicação de massa, desde os mensageiros e chasques à internet. Via de regra, quando o ouvinte, leitor ou telespectador seleciona um canal está fazendo um processo de escolha, uma eleição. Falando nisso, quero agradecer àqueles que tem recomendado o CD Paixão em Família e feito dele um presente a seus amigos radicados pelos CTGs do mundo, usando, precisamente, a internet como nos noticiam as livrarias.
Por fim, fico a pensar nas muitas convergências que devem incidir para que os acontecimentos tenham vazão. Paixões e decisões se aproximam através de outros mecanismos e ferramentas como a racionalidade, a inteligência e a sensatez. Para isso não se pode ter faltado às aulas de interpretação de textos ou de redação, nem trocar a ausência dos bancos escolares por meras suposições oportunistas ou revanchistas. Assim, ocorre com o processo eleitoral que tem seu grande momento municipalizado neste final de semana e, em raras situações, daqui a alguns dias.
As eleições são paixões decisivas, pena que a obrigatoriedade ainda seja a regra e a imagem do voto popular, para alguns, siga a paisagem da pseudocidadania, de considerar as pessoas votantes como massa de manobra. Cheguei a ponderar pela validade das votações em blocos de interesses culturais, no entanto, o cotidiano tem me acautelado, porque há mostras bem contemporâneas de tentativas e de riscos comandatários, que ainda persistem. 

Noutra feita, proseamos mais, no Chasque Pampeano. 

 

Gravataí, 04 de outubro de 2008.

Dilmar Paixão              

 

O SIMBOLISMO DA CHAMA

Que simbolismo encilha as nossas emoções

e vem passear nos galpões na Semana Farroupilha ?

 

 

Acendi rimas e versos no fogo de chão dolente.

A Chama Crioula, ao presente, traz conteúdo profundo.

Enquanto parte do mundo vive em guerra e se destrilha,

o Rio Grande une as famílias, aquecendo-se no amor,

para cultuar com louvor a Semana Farroupilha.


A Chama é uma só,

em centelhas, distribuída.

É a mesma chama acendida no coração de todos nós,

dando vibração à voz e à razão que nos conduz.

É o amor irradiando luz em busca de Eternidade,

conclamando humanidade junto ao altar de Jesus.

 

 

Esta chama de amor é a fortaleza da fé.

É o lunar do Índio Sepé aquecendo o amor nativo.

É o gauchismo, sempre vivo, transmitido por herança.

É a inocência da criança. É a linda prenda e seu sorriso.

É sentir o paraíso, quando olhamos a Querência.

 

 

No firmamento, os astros são centelhas farroupilhas.

E, cada estrela que brilha, é um herói que desponta.

Nossa história, de ponta a ponta, é compilada nesta Chama,

pois ela é amor – e o bom gaúcho ama.

A ma a Deus e ama ao pago,

ama sua família e, entusiasmado, ama à sociedade humana.

 

 

Quanto ensinamento, a Chama, nos dá com sensibilidade ?

Vejam a luz da Verdade brilhando como um sinal,

mostrando que é tão igual a luz do lampião, singela,

com a outra, mais fina e bela, decorando grande festa,

pois, um dia, tudo resta numa humilde luz de vela.

 

 

O meu verso é centelha modesta, mas uma relíquia para mim,

voz inquieta, qual clarim, defendendo minhas idéias.

Embora a rude epopéia dessas rimas feito tropilha,

que o sentimento encilha para galopear emoções,

veio passear nos galpões na Semana Farroupilha !

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De colega para colega: carta aberta aos professores

“Provas-não na Semana Farroupilha !”  

            Trago da minha vida acadêmica para a prática profissional docente, o aprendizado permanente do nosso eterno educador Paulo Freire numa frase síntese do recado de um grande mestre: ser professor é decidir ser aluno para sempre. Cito essa referência por ter ouvido com muita prudência a voz de uma professora do interior do Rio Grande do Sul que, de modo despretensioso, reivindicava apoio para a iniciativa de pedir ao sistema público e privado do ensino em todos os níveis, do jardim de infância à universidade, que não programem provas (via de regra cumulativas e bimestrais) nos dias da Semana Farroupilha e próximos a eles, em razão dos festejos tão tradicionais no nosso Estado.
            Por incrível que possa parecer, essa observação não me era presente, posto que, tanto para alunos quanto professores, possa ser um detalhe somente. Todavia, a professora Ana Lúcia Estima Martins manifestou a sua preocupação, como – talvez - tenha feito em seu segmento de atuação, numa proposta para o Congresso do Movimento Tradicionalista acontecido em janeiro no município de Santana do Livramento.
Eu não soube mais notícia da ressonância daquela súplica aos setores culturais ou de que tenha obtido algum alcance no seu intento. Destarte, por acreditar serem cabíveis novas investidas contaminadoras, sobrevôo o oceano com a minha gota d'água. Peço aos professores, por ter apreendido que não é por acaso que famílias inteiras transferem suas vidas para o acampamento do Parque Harmonia ou para os galpões e praças do interior gaúcho, que façam o mesmo na medida do seu domínio. Será compreensão, respeito, reconhecimento, conveniência e aprendizado sintonizando conhecimentos, habilidades e atitudes da ciência com aspectos essenciais da cultura do povo rio-grandense, representada em seus usos e costumes tradicionais.
A programação de atividades didáticas, eu reservo à confiança no bom senso e na qualidade tão desejáveis aos educadores do ensino formal. Sei que, maiores faculdades definidoras têm os dirigentes institucionais a quem reedito idêntica sugestão. Por derradeiro, a convicção de que, de alguma forma, todos contêm, se assim desejarem, probabilidades favoráveis à mudança. As comunidades escolares igualmente podem e precisam participar. Acesa a chama crioula no último sábado em São Leopoldo, viajando à cavalo aos mais distantes rincões rio-grandenses, quem sabe uma outra centelha não inflama e esbraseia os bons pensamentos. Provas-não na Semana Farroupilha !

Gravataí, 17 de agosto de 2008                   

Dilmar Xavier da Paixão -  Professor Universitário      

 

Pressões, imprecisões e impressões anotadas pelo caminho...

 

Volto de Brasília com mais algumas convicções profissionais. Pude conviver uma semana diferente com a cidade e com as pessoas do Brasil inteiro. Encontrei um número maior de brasilienses, porque há anos me era apresentada uma Brasília de candangos e, agora, uma nova geração tem assumido os serviços coletivos daquela sua terra. Convivi com vínculos afetivos, formei laços e alinhei idéias processando novidades que me oportunizaram outros espaços antes não disponíveis. Contudo anoto, por verdadeiro, aos apreciadores da cultura, um dos focos básicos deste chasque pampeano, que nada substitui a hospitalidade de acolher e bem receber as pessoas, independente dos seus “credos, cores, opiniões ou religiões”.
Muitos não compreendem, talvez pela cegueira da ânsia de ser o primeiro e estar na frente, que é desaconselhável atropelar-se as boas regras de convivência e a intencionalidade do companheirismo coletivo em prol do bem comum. Foi assim que percebi atitudes episódicas pouco recomendáveis a amigos dirigentes, para as quais apenas lamento pela imprecisão e equívoco. Recolho as flores e o perfume mais do que os espinhos, até porque parte dessas dores é passageira e imerecida. Por isso, volto-me à citação do companheiro Albino Becker dos Santos, que conheci em Santa Maria , hoje um bem sucedido líder empresarial e respeitado participante do tradicionalismo gaúcho sediado no planalto central do país.
O Becker e sua família propiciaram-me momentos agradabilíssimos de convivência e recordações. Pela condução deles visitei o Centro de Tradições Gaúchas Jayme Caetano Braun do patrão Itur Ivo Bartz e sua companheirada. Entendi um pouco mais os versos do Jayme no poema Hospitalidade...
Quero neste espaço, todavia, sublinhar o conteúdo de uma placa elaborada com muita qualidade artística e de sinceridade, pois, se ainda há quem prefira atitudes escusas à franqueza e à afeição, necessário se faz registrar que, mesmo respeitando a criatividade, muitas lições se têm para serem aprendidas e postas em prática pelos dirigentes como a fornecer exemplos aos demais. O ensinamento na porta de entrada do CTG Jayme Caetano Braun, em Brasília, pode ser reproduzido em todos os ambientes do tradicionalismo no mundo e em nossas entidades culturais, campeiras e artísticas. “Ao entrares neste galpão, pendure, no cabide de tua humildade, as tuas diferenças e preconceitos e, se mesmo assim preservares algum orgulho, que este seja o de ser gaúcho”.
Falarei mais sobre Brasília em novas oportunidades, contudo, quero ressaltar ainda a enorme satisfação por conhecer o sucesso de mais uma companheira de lida que sempre estive ao nosso lado. Atuando profissionalmente junto ao Vice-Presidente da República, a jornalista, advogada, colunista e escritora Vera Pinheiro é a essência de quem se pôs a caminhar, degrau por degrau, por acreditar em suas qualidades. E venceu! Verinha é um exemplo desde a persistência ao esforço de fazer pelo melhor e com qualidade... Nossa conversa foi bem-sucedida e muito agradável. Pretendo oferecer aos nossos companheiros comunicadores da cultura gaúcha numa ocasião mais propícia desfrutarem das suas opiniões e diretrizes.
Por pensar neles, os comunicadores, expresso meu mais sincero agradecimento a cada um dos que estiveram conosco no VIII Encontro dos Comunicadores da Cultura Gaúcha em Erechim. Abraço com especial zelo a dedicação do Aldomar, do Guimarães e do Neimar com a incondicional hospitalidade do Coordenador Sotoriva, do Conselheiro Airton Calheiro, do companheiro Dary e do Aldo. Pensar cultura, conversar sobre ela, destacar óbices e particularidades, propiciar ocasiões para a busca de suas verdades e tentar estudá-la para entendê-la nunca foi e nem será tarefa fácil. À recreação e à competição esportiva, sempre sobrarão prêmios, espaços e participações atuantes. A cultura... Bem, o próprio Barbosa Lessa já advertia e prevenia sobre isso ainda na tese O Sentido e o Valor do Tradicionalismo. Para seguir em frente é satisfatório ler poetas como o Vargas Neto em Outra Charla.

Proseio mais numa nova oportunidade destas da generosidade do Paulo Guimarães e do Chasque Pampeano.

Gravataí, 15 de agosto de 2008.

Dilmar Paixão

Das lembranças saudosas ao seguir em frente

Quando eu nasci ele era um menino. Tinha 10 anos e vinte dias de idade. Uma realidade pouco conhecida para a época. Não era como hoje, porque ninguém sabia ainda muito bem o que era e o que viria a ser um Centro de Tradições Gaúchas. Muito menos se imaginaria do que as proporções que foram alcançadas.
Sete anos mais tarde, eu fui para o CTG Rodeio da Saudade em Cruz Alta. Era a primeira vez, como eu descrevo na poesia Paixão em Família, no CD com esse mesmo nome (que, aliás, aproveito para agradecer a receptividade dos amigos).
Anos mais tarde vim sapatear e declamar no seu palco participando de concursos e levando os troféus que guardo carinhosamente e com boas lembranças, até porque a companhia me honrava e me orgulhava muito.
Meu ingresso como docente na Universidade comemorei no 35, onde pude presenciar turistas de vários rincões do mundo e do Brasil saboreando o churrasco e ouvindo os cancioneiros. Três anos depois, pude presenciar, com o Seu Paixão, meu pai, quando, no intervalo do conjunto das danças, o meu filho Arthur dançou a sua primeira chula pilchado de gaúcho no tablado da churrascaria. Eu sei que são lembranças pessoais. As minhas particularmente. Estou certo, também, que outras pessoas tem as suas recordações desse convívio do 35 CTG com a sociedade porto-alegrense e do Rio Grande do Sul.
O destaque que faço é de homenagem aos fundadores, aos patrões, à peonada e às prendas, aos associados, contudo, penso que é o universo gauchesco que precisa ser cumprimentado e festejar mais essa picada aberta no mato com muito esforço e audácia como é próprio do empreendedorismo. Celebremos, portanto, com grande festa e efusivos cumprimentos, os 60 anos do 35 CTG. Vá lá. A programação já está preparada. Haverá chimarrão, café campeiro, missa crioula, encontros, homenagens e um passeio para abraçar o Parque da Redenção, um dos pontos históricos de manifestações em Porto Alegre.
Permitam-me que eu ressalte, com imensa saudade, um dos seus peões que eu conheci já meio veterano , quando Santa Maria montava delegação para a 9ª Califórnia, e depois comemorando com ele a Calhandra de Ouro e suas três belas composições na 10ª edição. Conversamos muitas vezes. Aplaudi-o sempre. Pude saber de algumas de suas obras ainda recém saídas do forno. E que qualidade de sentimento e de arte! Que sonho criador !
No entardecer da sua vida fui surpreendido ao ser seu companheiro quando tomamos posse juntos, pela distinção da Profª Beatriz e da Profª Maria Helena, Presidente e Vice, na Estância da Poesia Crioula. Sei que presenciei, naquela tarde, um dos seus últimos momentos mais felizes. Ouvi no discurso dele, por coincidência, um pouco dos meus motivos, porque, como ele afirmou “a gente faz poesia e, ao sair para a vida do trabalho e do casamento, acaba hibernando por alguns anos até voltar num tempo mais tarde, mais maduro e saudoso, mas com vigor e o entusiasmo de retomar a caminhada”. O pago ficou mesmo perdido , porque um céu de chumbo cobriu o entardecer e os pés descalços do Antônio Augusto Ferreira não estão mais no correr da sanga . Os que ficamos rezamos por ele e precisamos continuar zelando pelo tradicionalismo que ele também tanto amou, defendeu e praticou.
No anoitecer de 24 de abril, honrado pela indicação do Paulo Guimarães e o gentil convite da 1ª Prenda Carine Rodrigues Lima, da Dione Souza e do Departamento Cultural, vou ao CTG Raízes do Sul para falar sobre “Impacto ambiental e lixo”, promoção parte do projeto Consciência Ambiental do CTG. Antes, no dia 20 de abril, em São Pedro do Sul, espero rever colegas e companheiros no VII Encontro dos Comunicadores da Cultura Gaúcha (inscrições pelo e-mail comunicadores@mtg.org.br ). “Por hora é isso”. Proseio mais numa próxima oportunidade. Dilmar Paixão

Gravataí, 04 de abril de 2008.

 

Dois dedos de prosa...
06/02/08

 

Ainda que o carnaval tenha vindo mais cedo e aprofundado a sensação quase anestésica dos festejos de mudança do ano, constato que 2008 começa agora. Pelo menos para a maioria das pessoas. Alguns esperarão pelo dia 03 de março...
Quero registrar neste espaço, por ora, dois momentos curiosos: a festa dos Pajadores e o Dante Ramon Ledesma.
Foi, por acaso, que o meu filho acertou o dia do espetáculo deste consagrado argentino agauchado tão querido de nós. As faixas de propaganda anunciavam-no quarta, quinta e domingo na praia, e não na terça-feira do carnaval. Mas, ele estava lá, de violão em punho e bradando forte, as suas convicções. Cantou, cantou e, sempre, acompanhado com os ritmados aplausos da platéia.
Porém, destaco um instante que me tocou particularmente. E não foi o fato dele cessar as conversas dos convivas quando iniciou a cantar. Dante calou e todos tomaram conta do refrão: "quero gaita de oito baixos p'ra ver o ronco que sai..." E a cantiga seguiu apontando os desejos pela indumentária, desde as "botas feitio do Alegrete até a guaiaca..." Uníssonos continuaram: "...saiu igualzito ao pai". Eu tenho certeza de que vocês sabem cantar de cor...
Respeitadas, a arte e a habilidade de empolgar desse mestre dos palcos latino-americanos, vale lembrar que houve quem nos chamasse de grossos, pelas ruas principais das cidades, quando vestidos com o traje de gaúcho. O Teixeirinha chegou a gravar um sucesso sobre isso.
Por falar nele (um precursor – o principal deles - do sucesso regionalista gaúcho) ouvi, de pessoas sentadas nas proximidades e que não conheciam o estilo do castelhano, críticas pejorativas como "tomara que ele não seja do tipo Teixeirinha". Como dizia o Jayme: “não gostei mas fiquei quieto...”
A espera valeu. A composição que encerrou o espetáculo foi a de maior empolgação e participação do público. Qual ? Ora, Querência Amada.
Ao sairmos, próximos, fiquei sabendo que a jovem porto-alegrense achou “encantadora... essa última música". Para contribuir com os seus conhecimentos perguntei-lhe se conhecia o autor da obra. Diante da negativa modifiquei a interrogação: o autor foi Vitor Mateus Teixeira, você sabe de quem estou falando ? Um outro, mais afoito, complementou na medida: "...exatamente, o grande Teixeirinha".
Se lhes conto isso e falo, também, do encontro dos pajadores, em homenagem ao Jayme Caetano Braun, dia 30 jan último, é porque essas ocasiões precisam ser intensificadas e, além disso, explicadas quando possível.
A incompreensão que rondou, por muitos anos, o movimento tradicionalista e segue, lamentavelmente, escravizando muitas das cabeças formadoras de opinião somente poderá ser minimizada com uma linguagem mais adequada e universalista. Porém, para isso, não necessitaremos mudar as nossas manifestações artísticas e, principalmente, os ritmos musicais e a nossa cultura rio-grandense. Pelo contrário é com a autenticidade que seremos capazes de revelar boa parte desse conhecimento que sofre com as peculiaridades do linguajar, dos costumes e das práticas tão nossas.
Preparar as pessoas para entenderem o que vão assistir ou participar, antecipar palavras difíceis do nosso vocabulário guasca e contar as histórias que estão envolvidas no assunto da composição, poesia ou dança podem representar um bom começo. Podemos aprender como as escolas carnavalescas, por exemplo, tratam os seus temas enredos, por vezes tão especiais quanto a nossa língua gaúcha. Quem sabe...
Penso que os pajadores deram uma demonstração incontestável disso: souberam pajar sobre temáticas difíceis e ditas na hora, como os problemas do mundo ou a recém criada Associação dos Amigos do IGTF. E, para demonstrar mais talento, o fizeram em versos rimados. Perdeu muito, quem não compareceu. Contudo, não faltarão novas oportunidades. Para quem exige muita antecedência, dia 30 de janeiro de 2009 tem - de novo - e, se valer a regra, com um espetáculo cada vez melhor.
Por fim, um abraço muito especial ao pajador Paulo de Freitas Mendonça pelos seus trinta anos de pajadas. Agora, ele roda o mundo com fotografias que comprovam tanta atividade. Respeitosos cumprimentos, porque, diferente de muitos (e em muitas profissões), Mendonça abriu seu próprio caminho em versos e, consagrado, seguiu ajudando outros pajadores a garantirem os seus espaços igualmente. Sem medo da concorrência. Isso é exceção; coisa de irmão e de quem pensa na família artística. Parabéns !
Proseio mais num próximo Chasque Pampeano, espaço desses que me reserva a gentileza do Paulo Guimarães.

Atlântida, 06 de fevereiro de 2008.

 

ENCONTROS E DESENCONTROS DA COMUNICAÇÃO
29/01/08

 
O recente Encontro dos Comunicadores da Cultura Gaúcha, paralelo a duas sessões do 55º Congresso Tradicionalista, em Livramento, tem seus detalhes divulgados aqui mesmo no Chasque Pampeano e nos veículos de comunicação de todo Estado e do mundo. Por isso, nesse comentário, aproveitando-me da generosidade do espaço, ocupo-me de outras abordagens.
É importante destacar que este reassoprar das brasas re-aproximando os profissionais da imprensa tradicionalista preocupados com os aspectos culturais e a integração de novos colegas tem sido intenso e mobilizador, embora o emprego de uma metodologia que, necessitando ser mais ágil, tem saltado determinadas fases à procura de uma organicidade que nos dê maior dinâmica à troca de informações. Quando sugeri e desencadeamos o Encontro de Comunicadores (21 abr 1994), partimos de encontros regionalizados crescendo para o evento maior. Desta vez, as possibilidades nos fazem pensar diferentes. Primeiro, a internet; depois a criação do Departamento de Comunicadores do MTG e, também, porque muitas realidades antigas permanecem nos veículos de comunicação.
Assim, organizamos um Departamento Central de Comunicadores no MTG ( comunicadores@mtg.org.br ) e incentivamos a criação de Departamentos nas 30 Regiões. No segundo semestre, queremos chegar aos Departamentos Locais nas Entidades Tradicionalistas. Todavia, as pessoas não têm a mesma agilidade de compreensão e de ação. Por isso, estamos, pelo Departamento Central, relacionando outros companheiros que possam servir de fonte e de retransmissor de notícias do tradicionalismo e da cultura rio-grandense. Sabemos que as dificuldades são enormes – e, também, internas.
Ainda no Encontro dos Comunicadores – para citar um exemplo concreto – os profissionais indicaram o professor, advogado e radialista José Aldomar de Castro para relatar as principais decisões aos Congressistas. Preparado, ele se dedicou a objetividade de comunicar a essência das informações. A surpresa dele, dos seus colegas e do plenário foi a inexplicável incompreensão da Vice que ocupava a Presidência dos trabalhos e, abruptamente, cortou-lhe a palavra, restando ao companheiro apenas uma frase final: “podem ser tomadas várias decisões que, de nada adiantarão, se não forem comunicadas, porque quem não se comunica...”
A resposta inteligente e oportuna satisfez como resposta, mas faz-nos pensar sobre outras atitudes prováveis como essa da liderança máxima do Congresso. Aprende-se que a informação tem prioridade. E absoluta. Terá sido falta de atenção sobre o que estava sendo comunicado? Ou poderia alguma parte da mensagem desagradá-la? Vozes correntes não encontraram razões que justificassem o enrijecimento evidenciado, porque se permitiu a outros oradores prolongarem-se em abordagens enfadonhas e com pouco sentido prático. É árduo, portanto, o trabalho.
O Encontro dos Comunicadores, por seu conteúdo e essência, foi de grande valor organizacional, integrador e estimulante. Os companheiros Paulo Guimarães(site Chasque Pampeano) e José Aldomar de Castro(Rádio Cruz Alta) foram muito felizes nas abordagens que fizeram dos temas que lhes foram propostos. Por mais que se saiba, a internet ainda continua sendo um “bicho que assusta” a maioria das pessoas e a necessidade de incluir cultura na programação dos meios de comunicação social é tão urgente quanto sempre foi. Perdeu muito, quem não participou. O próximo Encontro será em São Pedro do Sul, dia 20 de abril, no CTG Rincão de São Pedro. Agradecer ao Aldomar e ao Guimarães é a forma de reconhecer a qualidade do trabalho de cada um e do esforço em dedicar e compartilhar seus conhecimentos com os colegas.
Esteja conosco!  Este é um convite permanente a todas as pessoas interessadas na valorização e disseminação das informações da cultura gaúcha. Precisamos tornar Encontros os tantos (des)encontros da Comunicação.
Proseamos mais num próximo Chasque

Jornal Virtual: alguém imaginava isso ?

O ensejo de comemorarmos com o Guimarães, o Silvano e a família, no dia 06 de dezembro/2007, o primeiro aniversário do Jornal Virtual Chasque Pampeano, propicia a todos nós, praticantes e admiradores do tradicionalismo gaúcho, algumas reflexões pertinentes. Durante muito tempo, manteve-se a discussão primária de que, por sermos tradicionalistas, deveríamos nos ater às coisas conservadoras, como não adotar os princípios evolutivos do automóvel, da ciência, da tecnologia, da arte e da vida moderna.
Se nossos antepassados dispunham do cavalo, da aranha, da carroça, como meios de transportes, somos forçados a compreender que, assim como o trator e as outras máquinas agrícolas facilitaram e aperfeiçoaram o cultivo da lavoura, os veículos mais modernos, além da oportunidade e benefício da escolha, garantiram condições melhores para o deslocamento com rapidez e qualidade. Quem, como eu, aprendeu a dirigir num fuca (porque o “s” do fusca só veio depois!), compreende que conduzir um carro com direção hidráulica ou “ser conduzido” por um modelo automático é sinônimo de conforto e de evolução.
Quando o Presidente da República - “aquele” - falou que os carros brasileiros eram comparáveis a carroças pelo atraso de alguns modelos, muitos rimos e reclamamos da desvalorização afirmada. Continuamos pensando assim? Também pensamos nisso, ao lembrarmos que, ao cruzar outro veículo nas estradas empoeiradas do interior, fechávamos o vidro do carro para não entrar poeira e, novamente, o abríamos tal o calor insuportável. O ar condicionado veicular é outro componente facilitador desse conforto.
O caráter evolutivo do mundo e, principalmente, da tecnologia e da ciência são inquestionáveis. Porém, ao tradicionalista, outros motivos são essenciais e importantes na vida: nossos usos e costumes gauchescos, a tradicionalidade, a cultura, os padrões de respeitabilidade e convivência social, a liberdade em todas as suas manifestações e, acima de tudo, o amor e o orgulho de ser rio-grandense e integrante de uma família gaúcha.
Não há contra-senso nem dificuldade de entendermos isso. Para alinharmos algumas razões basta compreendermos que a sigla MTG significa Movimento Tradicionalista Gaúcho. É Movimento porque se move e, se é movediço, acompanha a evolução. Mais do que isso, não há como negar a sua expansão como cultura, arte e sentimentalismo.
Houve quem afirmasse num passado não muito distante que nós, os tradicionalistas, éramos conservadores e saudosistas. Quando nos falavam isso ainda não tínhamos toda essa discussão da consciência ecológica e preservadora. Todos somos saudosistas e de muitos comportamentos que ainda são saudade no mundo de hoje como: o respeito com os mais velhos, as brincadeiras sadias, a criatividade do brinquedo não-eletrônico, as visitas às famílias amigas, o sentido de família e a prática da idéia de comunidade.
É preciso citar que somos saudosistas da possibilidade de deixar as janelas abertas e a porta encostada como há muito tempo? Onde está a segurança das pessoas sentadas na calçada na frente das casas?
Este mesmo caráter evolutivo trouxe o celular, a televisão digital e as tantas evoluções hoje disponíveis. Por nós, queremos continuar sendo tradicionalistas, preservando valores, respeitando costumes e, relembrando os antepassados, como quem constrói sobre firmes alicerces. Se os meios contemporâneos nos permitem evoluir, vamos crescer e evoluir sempre. Se o mercado de trabalho nos impõe outros uniformes diferentes da lida agropastoril, vamos compreender que há momentos para cultuar a tradição, mas, jamais, devemos autorizar que pisoteiem, menosprezem ou ridicularizem os fatores essenciais da nossa tradicionalidade gaúcha.
O primeiro aniversário do Jornal Virtual Chasque Pampeano tem muito dessa representação das nossas idéias de movimento e de tradicionalismo . É um meio de comunicação fascinante, rápido, inteligente e, melhor de tudo, gratuito. A agilidade computacional e suas infindáveis razões culturais e associativas justificam seu uso em benefício da difusão de idéias e da informação das pessoas. Da mesma maneira que encilho o pingo para um passeio ou cavalgada e ando de automóvel, viajamos pela internet conversando, trocando opiniões e sabendo dos acontecimentos.
Cumprimento, ao Guimarães, pela intenção e a todos nós por compartilhamos dessa alternativa que nos diverte, atualiza e nos une em prol de um tradicionalismo presente, atuante, dinâmico e que se expande como o maior movimento associativo cultural do mundo. O Barbosa Lessa, na tese sobre “O Sentido e o Valor do Tradicionalismo”, admitia que, embora fosse uma ação de massa popular, o movimento seria entendido sempre por uma minoria intelectual. Cabe-nos, portanto, compartilharmos conhecimentos, democratizarmos as experiências, aprendermos com a cultura de todos, porque mesmo o analfabeto sabe pensar e nos pode ensinar muitas coisas. A luta, portanto, é mantermo-nos fiéis às nossas origens e ao culto dos nossos costumes, com humanismo e hospitalidade, seguir em frente com a evolução, mas, como nos ensinaram cantando os Irmãos Bertussi, “conservando no sangue de gaúcho, a tradição”.

Proseamos mais numa outra oportunidade.
Até lá !

 

Gravataí, 06 de dezembro de 2007

A Carta de Princípios do Tradicionalismo e a ressonância nos poderes públicos

Pingo desencilhado e abrigado, vestido de cotidiano, reencontro-me com o conforto da tecnologia e com a comodidade de quem correu os olhos pelas notícias do mundo, focado nas referências sobre a semana farroupilha e o 20 de setembro, a data magna do gaúcho. Sim, a internet é portadora hoje de amplas sesmarias de informações nas quais o tradicionalismo é mais do que notícia: é endereço de sítios de convivência e de troca de experiências gauchescas.
A chuva esteve presente nos mais longínquos recantos rio-grandenses, acompanhando o garbo e o orgulho dos gaúchos, porque nem ela conseguiu apagar o candeeiro farroupilha e a chama crioula dessas comemorações. Presenciar figuras ilustres como o Telmo de Lima Freitas, o Nico Fagundes, o Rodi Borghetti e tantos outros desses mais veteranos, que não se incomodaram ante a exposição aos rigores do tempo, é renovar os sentimentalismos mais puros da alma gauchesca.
Em Porto Alegre foi assim. Por todo lugar, com a mesma vontade. Se um ou outro detalhe peculiar assinalava os registros regionalizados, mesmo isso, servia como reforço ao desejo mais eloqüente de registrar o amor à querência e o orgulho de ter nascido gaúcho, mesmo se transferida a certidão de nascimento.
Na fronteira, em Livramento, o desfile começou de um lado e cruzou para o Uruguai. São os gaúchos, mundo adentro, revendo como se movimentaram os antepassados e, mais do que isso, revivendo, em conversas animadas e até nos debates mais elaborados, condições e características acordadas para a paz.
O decênio heróico, inegável pelas evidências de coragem e de rebeldia, continua servindo de modelo a toda a terra. Os desfilantes têm os motivos mais diversos, porque a Semana Farroupilha se distribui por infindáveis razões recreativas, associativas e culturais. Sempre é o gaúcho: hospitaleiro e gentil, xucro e bagual, habilidoso na lida e rude com as adversidades, inclusive as climáticas.
A diversidade das opiniões sobre o desfile é, apenas, a maior amplitude das lentes avaliativas sobre o que está sendo admitido como o mês farroupilha. Ao repórter entusiasmado pela altivez dos que nem se importaram em desfilar sob a chuva forte, contrapõe-se o seu colega, que noticia mais o cavalo assustado com o público e a banda musical do que a habilidade do cavaleiro que o manteve controlado todo o percurso. Eu prefiro o registro de um grupo grande de americanos que, em forma de intercâmbio, educada e organizadamente, foi recebido no acampamento farroupilha no galpão do Correio do Povo. Com tradução simultânea, jovens tradicionalistas e adultos do MTG lhes explicaram o porquê das comemorações e alguns dos nossos principais usos e costumes como a habilidade na confecção do símbolo da nossa hospitalidade: o chimarrão.
Não há quem fique indiferente ao presenciar o interesse dos estranhos para ouvir e saber mais das nossas práticas como povo e nação rio-grandense. Porém, há que se organizar melhor a festança, respeitando-se as caracterizações de cada época e se evitando as interferências pouco recomendáveis, através do filtro do bom senso. A poeira, o barro, o esgoto a céu aberto, a precariedade da infra-estrutura concedida pelo poder público em todos os níveis no parque da capital, enfim, não condizem com a importância dessas comemorações. O interior e até plagas distantes no estrangeiro têm tropilhas de exemplos bem sucedidos.
Voltando aos desfiles, ainda há muito a ser analisado. Por ora, saliento a felicidade dos tradicionalistas mais atentos ao verem reflexos do alcance do artigo 29 da Carta de Princípios do MTG elaborada por Glaucus Saraiva (o mesmo do “amargo doce que eu sorvo num beijo em lábios de prata...”). A Carta recomenda a necessidade do tradicionalismo “conquistar um estágio de força social com ressonância nos poderes públicos e nas classes rio-grandenses...”. Por entre os incontáveis cavaleiros da capital, estavam Secretários de Estado, representantes do Poder Legislativo e outras autoridades. Quanta diferença dos primórdios desses festejos e dos desfiles de décadas passadas. Por isso, a homenagem ao Paixão Cortes foi justa e merecida.
O mundo ? Ah, o tradicionalismo como cultura viva tem recebido o aconchego de novos adeptos em todos os lugares.
Proseamos mais, pensando alto, numa nova oportunidade dessas propiciadas pela gentileza do Guimarães.
Até lá !
Porto Alegre, outubro de 2007

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Valor afetivo do “mês” farroupilha

 

A Semana Farroupilha tem muito disso: um reencontro com os valores pessoais e com as crenças recebidas por herança dos antepassados. Aqueles longe de serem rio-grandenses ou os gaúchos que nunca estiveram muito presentes nas lidas gauchescas, todos, invariavelmente, perceberão que este é um período diferente aqui no Rio Grande do Sul. Por estas bandas, é, praticamente, o mês farroupilha, tal o envolvimento das pessoas com os preparativos, os acampamentos e as atividades propriamente ditas.
Lembro-me nessas ocasiões do Paulo Aripe, o padre-poeta que criou a Missa Crioula, um dos meus principais padrinhos nos versos, na profissão de comunicador e de produtor cultural. Um dos seus poemas reflexivo-humorístico, relata a primeira viagem de trem de um índio grosso de Alegrete à Porto Alegre, no qual ele descreve a visão interiorana que se tem do porto-alegrense de segunda a sexta: “o homem da capital sempre sério e preocupado, mecânico e artificial, num atropelo brutal”. Estranha-se mesmo a rua da praia e o vai-e-vem automático cada vez mais acelerado. Esse atropelo é uma das tantas diferenças que podem ser percebidas ao se olhar o mundo com a retina um pouco mais descansada.
Quantos telefonemas do interior solicitam alguma ajuda para parentes e amigos próximos sem que se perceba que, muitas vezes, é preciso fazer-se quase uma viagem dentro da própria cidade de Porto Alegre. Eu também pensava assim... Achava curioso, por exemplo, tanta correria de segunda à sexta-feira e a folga no sábado. Após um ano de vida na capital e mais dez na região metropolitana é possível convidá-los a pensar sobre esse fenômeno. Fica até mais fácil entender-se as razões do Paixão Cortes e dos outros companheiros de 1947 ao agitarem o ambiente com a cavalaria, a ronda crioula e tudo o que de lá decorreu.
O Acampamento Farroupilha no Parque da Harmonia é repleto desses sentimentos saudosos e do prazer de ser rio-grandense por nascimento ou adoção. Os gaúchos são assim por natureza: focados na necessidade e na importância de se reafirmar sempre como povo e como cultura. O Barbosa Lessa, autor da memorável tese o Sentido e o Valor do Tradicionalismo, tão atual quanto foi na sua apresentação em 1954, afirmou, incansavelmente, que “o tradicionalismo como movimento de massa seria sempre entendido por uma minoria intelectual”. Pois, estes se reúnem aos demais na Semana Farroupilha e, deste encontro do tradicionalista autêntico campeirista com os apaixonados pelo culto, nasce o sentimento revigorado de que ser gaúcho já nos basta “p´ra ser feliz no universo” ( Eis o Homem -Marco Aurélio Campos).
O valor afetivo é parceiro de mate do valor cultural. As artes campeiras chimarreiam juntas com as habilidades artísticas e da culinária. Não faltam trovadores, declamadores, cantores e instrumentistas. Palestras povoam salas citando fatos históricos e lições contemporâneas. A recreação dos fandangos se mescla aos aplausos pelas habilidades campeiras do tiro de laço, da gineteada e tantas demonstrações da tradicionalidade. Até o desfile de vinte de setembro é diferente...
Talvez a saudade e a lembrança sejam decisivas no coração do morador porto-alegrense, que é capaz de dedicar alguns dias das suas férias para acampar na precariedade da infra-estrutura dos parques públicos. No interior não é diferente, mas o registro que quero fazer é de que Porto Alegre tem um envolvimento especialmente surpreendente, tantos foram os meus amigos que se mobilizaram para estarem organizados em grupos fraternos reavivando o fogo, renovando o mate, mantendo a água quente na mais autêntica e afetiva hospitalidade. Faça chuva ou sol lá estão eles. E elas são muito mais do que belas, porque acompanham como parceiras e conviventes, algumas decisivamente.
Por todo o mundo estão os gaúchos a comemorar esse sentimentalismo farroupilha. Será que precisamos mais ? A recente Expointer, a safra, os nossos destaques individuais ou coletivos nas competições, enfim, é inegável a satisfação de se ver valores rio-grandenses serem reconhecidos nos diversos campos e setores da atividade humana. Ao poder central e institucionalizado, porém, ainda precisamos fazer mais reivindicações e exigências. Por hora, resta aplaudir os governos que possuem Departamentos de Tradição, Cultura e Folclore atuantes, ativos, incentivados e em sintonia com o valor afetivo do coração rio-grandense. Festejamos por hora, mas voltemos ao tema do compromisso governamental com a cultura do nosso povo numa próxima campereada.

Gravataí, 1º set 2007.

 

O pacto campeiro

  Conheci somente o meu avô paterno. Sempre era visto de bombacha, camisa e guaiaca. O lenço no seu pescoço só aparecia em momentos especiais ou quando saia para algum passeio, visita ou ir ao médico mais ao final da vida. As botas tinham a mesma destinação, porque o chinelo de couro preto assumia o seu acompanhamento na quase totalidade das funções caseiras.
O meu pai foi o filho que assumiu, numa espécie de pacto campeiro, o envolvimento com a preservação da tradicionalidade dos usos e dos costumes da família e da sua geração. Os seus irmãos destinaram-se a atividades e incumbências outras, distantes do Centro de Tradições. O mais velho fez investidas num cargo de assessoria de uma patronagem, em um outro CTG, após o casamento e por um bom tempo. Os demais, pilcharam-se algumas vezes para ocasiões recreativas.
A minha mãe, oriunda do interior, sabia tanto quanto o meu pai das lidas campeiras e, além de tudo, escondia resquícios de suas habilidades, por exemplo, nas oportunidades nas quais alguém oferecesse um cavalo para montaria. Esquivava-se, porém, cedia à insistência e montava sentada de lado sobre a anca do animal no mais tradicional estilo de quem sabia andar a cavalo sentada no selim (ou silim, pela oralidade). Eu, piazito, presenciei muitas vezes jovens mulheres tentando aprender com ela particularidades como essa e, finalmente, optando por montar do modo masculino, alegando praticidade.
Eu gostava do futebol e, como os bons canhotos do meu tempo, chutava forte e não temia pelas jogadas dos adversários. No campinho do bairro, na quadra do colégio, no pátio das casas e até sobre o calçamento da rua sentíamo-nos como jogando no tapete verde das narrações esportivas. As pedras irregulares do calçamento muitas vezes destampavam um pedaço do dedão, contudo a partida continuava amarrada pela honra de buscar a vitória. Tinha o boco, o jogo de bolitas e as brincadeiras que se aprendia na escola ou que chegavam ao conhecimento da gente por um guri ou uma guria nova que aparecia na redondeza. A família visitava parentes semanalmente. A vida mudava de direção nas férias escolares e acampávamos na casa rural da avó materna.
Em uma sexta-feira veio o aviso: “amanhã, vocês vão conhecer um CTG”. A piazada ainda estava formando os times quando saímos para a parada do ônibus. Ainda não sei se me impressionou mais a recepção das pessoas ou a grandiosidade do “galpão crioulo” do CTG Rodeio da Saudade. Lembro-me bem do ensaio de danças das crianças. Acanhado, bastou apresentarem-me à 1ª Prenda para que a guriazinha me puxasse pela mão, apoiada pelos adultos. Pressionado, recordo apenas que ela usava óculos, estava de vestido de prenda e que eu, por inabilidade, pisei os seus pés nas primeiras tentativas.
Meu começo foi assim. Cresci dançarino, virei posteiro mirim, depois juvenil, adulto e portador de troféus e medalhas por danças e declamações. Estudávamos as danças do Manual do Paixão Cortes para depois ensinar aos demais. Meu pai escrevia a Coluna Tradicionalista para o Jornal Diário Serrano e a vida foi passando ou nós passando por ela.
Torci muito pelo nascimento de um guri, após nove anos de casado. E fui atendido. Compartilhamos a administração do seu crescimento e procurei respeitar as suas opções pensando na minha primeira dança. Sempre vi meu pai ativamente envolvido no tradicionalismo e a minha irmã construindo sólidas bases culturais. Estréio hoje esta coluna eletrônica, pela gentileza do convite do Guimarães e pelo compromisso de carregar o bastão até a geração do meu filho, como um pacto assumido do qual, aos poucos, nós vamos aprendendo os detalhes e os porquês.

dilmarpaixao@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

Você também pode publicar um artigo de sua autoria no Jornal Virtual Chasque Pampeano. Mande seu texto e foto, se tiver para o e-mail: guimaraes@chasquepampeano.com.br